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Entrevista com Maximo Kausch: Oito meses no Himalaia


Categoria: Entrevistas

Maximo Kausch conta como foram os oito meses de expedição no Himalaia, sua experiência, suas decepções e feitos. Confira a entrevista:

Longe de ser um nome badalado na mídia, este argentino, que cresceu e aprendeu a escalar no Brasil, vem se tornando um dos um dos latinos americanos mais experientes no meio da montanha, isso tudo com apenas 29 anos de idade, quase 15 dedicados ao montanhismo.
 
Maximo é um dos poucos montanhistas oriundos do Brasil que trabalha como líder de expedição em montanhas de oito mil metros no Himalaia. Com a vasta experiência adquirida nos Andes, realizando ascensões em montanhas isoladas, misturando o “estilo alpino” com a improvisação e a falta de dinheiro típica de um jovem latino americano, num estilo que ele batizou de “GenteDeMontanha”, sua história na maior cadeia montanhosa do mundo começou em 2004, quando ele foi para a Ásia pela primeira vez e impressionou o dono da Agência SummitClimb, o americano Dan Mazur.
 
Desde então Maximo tem realizado diversas expedições e sua última experiência, que durou 8 meses, mostra como tem sido sua vida desde que se tornou um montanhista profissional. Confira a entrevista abaixo:
 
AltaMontanha: Oito meses nas montanhas do Himalaia... Por onde você esteve neste tempo todo?
 
Maximo Kausch: Fui à trabalho para o Nepal e Tibet, guiei o Cho Oyu 2 vezes e guiei mais duas montanhas de 6000m, o Paquistão  foi diversão mesmo... rsrsrs
 
AM: Em que montanhas você esteve nestes países?                                                                            
 
MK: Levei 9 clientes ao cume do Lobuche East com 6110m, é uma montanha fácil e super divertida e a vista é espetacular! Isso foi em abril passado. Depois eu tive 5 clientes de uma empresa americana para o Cho Oyu, uma montanha de 8200m, que eu já tinha escalado em 2008. A monção foi super forte e somente consegui levar 1 cliente até o cume. Pegamos 70cm de neve em 2 horas! Uma semana depois fui para o Paquistão para escalar o Gasherbrum II com 8035m e o Hidden Peak com 8080m. Fiquei 70 dias por lá. Depois voltei ao Cho Oyu novamente com 12 clientes e a minha última expedição no Himalaia foi em outubro e novembro passado ao Ama Dablam, uma montanha super técnica de 6850m.
 
AM: Você já foi 3 vezes pro Cho Oyu e fez cume em duas oportunidades. Não fica enjoado de ir tantas vezes para o mesmo local?
 
MK: Montanhas grandes como o Cho Oyu são sempre diferentes. Na minha expedição em abril a montanha estava totalmente seca e com 5 faixas rochosas, o que é totalmente diferente do outono. Haviam somente 6 expedições na montanha e apenas 7 pessoas fizeram cume na primavera. Como a monção foi muito forte, a minha expedição de setembro foi prejudicada e não conseguimos chegar no cume. Acho que mesmo sendo a mesma montanha, cada expedição sempre será diferente. Acho que nunca iria enjoar de organizar e executar uma expedição dessas. Fora isso, sempre conheço gente totalmente diferente.
 
AM: Então as condições de tempo instáveis aumentaram as emoções na montanha? Você acha que escalar hoje em dia no Himalaia está difícil como nos Andes por conta desta questão de mudanças climáticas?
 
MK: Planejar e executar uma expedição desse porte não é algo fácil. Dependemos muito das datas especificas para esperar a monção chegar ou partir do Himalaia. Um atraso na monção, excesso de neve ou qualquer coisas que sai fora da equação torna a expedição muito mais difícil. Geralmente planejamos estas escaladas prevendo um dia específico para chegar ao cume e as mudanças climáticas tornam tudo muito mais complicado logisticamente e claro, mais CARO. Claro que isso faz com que a escalada para mim seja muito mais apimentada e ganho muito mais conhecimento e experiência com isso. Já os clientes não acham o mesmo... rsrsrs.
 
AM: Você presenciou o drama das chuvas e enchentes no Paquistão. O que houve? Como você conseguiu sair do país naquelas condições?
 
MK: O Paquistão foi um caos! Ficamos muito tempo na montanha e não tínhamos idéia do que estava acontecendo mais abaixo. Tivemos 58 dias de mau tempo na montanha! De vez em quando ouvíamos rumores de que haviam enchentes nas partes mais baixas mas não sabíamos que haviam milhares de mortos e mais de 22 milhões sem acesso a água limpa, remédios, comida ou abrigo. Demoramos muito para descer da montanha, pois muitas pontes foram levadas por rios e houve muitos desmoronamentos levaram as estradas. Em Skardu mesmo, 2 vilas do outro lado do rio foram levadas por avalanches de lama e 60 pessoas morreram um dia após chegarmos. A Karakorum Highway, que é a única estrada de ligação com o norte do país ficou comprometida porque 22 pontes foram levadas pelos imensos rios que a estrada atravessa. O norte ficou isolado e não havia combustível ou comida. Não havia vôos para Islamabad, pois o tempo estava péssimo. Com medo de má reputação internacional o governo decidiu evacuar todos os estrangeiros. No dia 12 de agosto conseguimos pegar uma “carona”num avião de ajuda humanitária da ONU, era um Hércules C130 a hélice, foi uma experiência e tanto. Na região vimos corpos humanos boiando ao lado de vacas mortas e troncos de árvores. Vi coisas que jamais esquecerei no Paquistão.
 

AM: Com um tempo assim certamente as condições na montanha estavam ruins. Você chegou em alguma situação de risco em suas escaladas no Paquistão?
 
MK: Várias coisas aconteceram. Tive um problema de saúde a 7000m e isso evitou que eu escalasse o Gasherbrum II. Mesmo assim, das 17 pessoas que tentaram cume naquele dia, 5 delas conseguiram e 2 desceram com congelamentos, foi um dia de muito vento. Mais tarde o meu problema foi diagnosticado como falha no pâncreas, porém jamais fiz algo a respeito. Segundo o médico, isso foi pelo fato de eu ter ficado tanto tempo na altitude. Na descida da minha tentativa ao Hidden Peak caí numa greta. Eu estava encordado com um grande amigo sueco. Porém estávamos exaustos e fazendo uma curva, o que deixou a corda frouxa. Tive uma queda livre de 12 metros e caí de costas. Fiquei entalado de costas no fundo de uma greta. Segundos após a queda, a ponte que eu quebrei quando caí colapsou e caiu em cima de mim. Era um bloco de pelo menos 50kg. O bloco caiu na minha cabeça e peito. O impacto quebrou meu capacete no meio e fiquei totalmente enterrado na neve/gelo. Somente consegui mexer uma mão. Aos poucos consegui empurrar a neve do meu peito e liberar a minha cara. Depois liberei o outro braço e consegui sentar. Tive que jumarear para sair da greta. Tive pré congelamento num dedo, sendo que do lado de fora da greta faziam 43 graus positivos! Foi um milagre eu conseguir escapar vivo dali.
 
AM: Então você chegou a ter problemas de saúde por ter ficado tanto tempo em altitude? No final, você consegue contabilizar nestes 8 meses quanto tempo ficou em altitude elevada?
 
MK: Fiquei mais de 6 meses acima de 5000m, 92 dias acima de 6000, 22 dias acima de 7000.
 
AM: Caraca, impressionante! Me diga uma coisa, fora o pâncreas houve outro problema pela permanência excessiva em altitude? É verdade aquela teoria que altitude demais queima o cérebro?
 
MK: É verdade! Minha memória de curto prazo ficou afetada, minha capacidade matemática ficou com performance baixa. Perdi muita massa muscular, 10kg no total. Fora isso fiquei cansado psicologicamente por ter ficado tanto tempo “ligado”nos clientes. Trabalhando num ambiente desses, você fica preocupado 24 horas por dia. A nossa base no Tibet, por exemplo, tem 5700m e qualquer coisa pode acontecer com os clientes. Fora isso eu tinha 15 pessoas trabalhando, que também tem um monte de problemas. Isso traz muito stress, algo que eu não tenho que lidar quando estou fazendo as minhas próprias escaladas. Não recomendo ficar tanto tempo na altitude. Acho que isso queima tantos neurônios quanto beber e usar drogas.
 
AM: Todo mundo diz que queria ter uma vida igual a sua e ficar na montanha “se divertindo”. Trabalhar em montanhas não é bem assim não é? Quais foram os problemas que você teve que enfrentar com os clientes?
 
MK: Clientes comercias apresentam todo tipo de problema. Acho que o mais engraçado que eu tive que lidar (não vou citar o nome ou a expedição) foi de um cliente que teve um caso grave de hemorróidas. Eu tive que examinar o pobre “paciente” e o tratamento foi um creme com corticóides que eu mesmo fiz e um dedo de uma luva cirúrgica cheio de gelo. Aclaro aqui eu NÃO APLIQUEI o tratamento e ele mesmo o fez. Fora isso, lidamos com casos de edemas pulmonares leves, edemas cerebrais, derrames retinais, traumas – muitos traumas!, doenças no trato digestivo por inúmeras razões, pré-congelamentos, problemas com articulações, etc, etc. Também ajudei com outras expedições comerciais e não comerciais. Alguns problemas foram bem ‘trash’. Descemos o corpo de um russo morto no Cho Oyu, no Ama Dablam ajudamos a evacuar 2 pessoas com edemas pulmonares graves. Evacuamos uma escocesa com 6 fraturas num braço no Ama Dablam. No Cho Oyu descemos um escalador com edema cerebral grave. Na mesma montanha, junto com vários líderes de expedição formamos um grande bloco e subimos para ajudar um grupo de 7 sherpas que foi pego numa avalanche a 7700m. Foram todos casos de traumas, alguns graves outros nem tanto. Um deles tinha 3 costelas quebradas em 2 partes cada uma, um pneumotórax. Arrumamos o problema com bambu e fita adesiva “silver tape”. Com outros traumas tivemos que improvisar e evacuar as vítimas o mais rápido possível, pois estávamos tratando dos casos a 7100 metros, um lugar, digamos assim, não muito adequado... Até perdi a conta de tantos problemas com que tivemos que lidar. Acabou virando rotina e hoje em dia nem fico mais tão espantado em ver gente morta ou com ferimentos grave. Faz parte.
 
AM: Voltando à questão das montanhas, na pré temporada você fez cume no Cho Oyo com relativa facilidade, mas e na pós monção? Por que não deu pra fazer cume?
 
MK: A monção na verdade nos pegou em cheio no dia 25 de maio. Inclusive a empresa para que eu trabalho tinha expedições no Cho Oyu, no Makalu, no Everest lado norte e Everest lado sul. Perdemos 2 pessoas no lado norte do Everest e 1 pessoa no Makalu. Nossas tentativas ao cume foram simultâneas em Maio e conseguíamos falar por rádio do cume de uma montanha à outra. Pelo rádio contávamos uns aos outros como estava o forte vento em cada uma das montanhas. A tempestade de neve de maio foi por causa de um ciclone no golfo de Bengala. 10 dias mais tarde houve outro ciclone na costa do Paquistão que arrasou a costa de Karachi. Isso foi bem no dia que eu cheguei no Paquistão. A monção continuou forte e teve efeitos até no Karakorum. Muita neve foi depositada nas montanhas, e o derretimento dela teve efeitos desastrosos nos vales mais baixos e para os escaladores ali. Nossas barracas a 6000m foram totalmente soterradas por 1 metro de neve acima do teto e achamos elas por GPS. No pós-moção no Tibet tivemos muitos metros de neve deixados pela monção, que acabou 2 semanas depois do previsto. Várias camadas de neve fofa estavam depositadas acima de 7100m e não estava nada seguro levar clientes numa piramba daquelas com neve solta. Após a monção terminar, 5 sherpas foram pegos numa avalanche a 7900m, depois outros 7 numa a 7700m. Estava realmente perigoso escalar ali. Apesar das 30 expedições presentes na montanha, somente 2 pessoas conseguiram se aventurar e chegar ao cume, um deles teve congelamentos no pé. No Ama Dablam, uma estranha "coroa" de neve apareceu a 70m do cume da montanha. Esta coroa era na verdade uma linha de fratura de uma placa de neve que se desprendeu e tinha pelo menos 4 metros de altura. Estava realmente perigoso transitar por ali, mas encontramos uma saída pela direita do escalão de neve. Todos os que estavam ali dividem a mesma opinião de que a última monção foi a pior em muitos anos. No Paquistão foi a pior dos últimos 80 anos!
 
AM: Bom, depois de tanta dificuldades, no final tudo deu certo no Ama Dablam. Como foi a expedição lá? É verdade que esta expedição foi a que teve a melhor taxa de sucesso no Himalaia?
 
MK: Sim, isso foi confirmado pela Miss Hawley. Fomos a expedição comercial com maior taxa de sucesso no pós monção nepalês. Dos 17 montanhistas, 14 fizeram cume do Ama Dablam. Entre uma ajudinha aqui e ali com os clientes, acabei demorando 22 horas em sair do acampamento, fazer cume e voltar. Dividi a minha expedição em 2 times. Um mais rápido, de somente 3 clientes, um ajudante e um sherpa – que fizeram cume no dia 3 de novembro - e o meu grupo, com 7 clientes e 3 sherpas e eu, que fizemos cume no dia 4 de novembro. Tivemos sorte com o tempo e só pegamos um pouco de vento a 6300m.
 
AM: Houve um problema envolvendo você nesta escalada, numa matéria publicada no site da Barrabés da Espanha, o que aconteceu?
 
MK: Bom, é uma história muito longa... Meus sherpas e eu trabalhamos muito duro no Ama Dablam para fixar as cordas. Subimos cargas de 40kg em paredes verticais, cavamos plataformas em gelo sólido, e fora disso os 500 metros de corda que instalamos na montanha, como é feito todos os anos. Este trabalho foi dividido por várias expedições, e isso custa muito dinheiro. Na descida estávamos muito cansados e encontramos um grupo de espanhóis subindo. Segundo eles, iam escalar em estilo alpino, sem usar as cordas. Eles foram muito arrogantes na hora que pedi para eles contribuírem com as cordas fixas, seja dando cordas, estacas, parafusos, mão de obra ou dinheiro. No dia seguinte desde o acampamento base, todos podiam ver como eles usaram as cordas que instalamos. Eles acabaram não chegando ao cume e enquanto desciam, começou a correr um boato de que eles não pagaram permissão para escalar o Ama Dablam. Com mais de 200 pessoas no acampamento-base que pagaram a permissão, logística e contribuíram com cordas, ninguém estava contente com aquilo. Na volta à Espanha, em vez de ficarem calados a respeito da escalada que foi totalmente ilegal e inclusive eles estão sendo procurados pelas autoridades nepalesas, publicaram a escalada na primeira página da Barrabes.com. Para piorar eles ainda me acusaram de ter feito algo anti-ético, por ter denunciado eles para as autoridades. Sendo que nem fui quem denunciou eles! Eles perderam a melhor chance que tiveram de ficar quietos. Agora nenhum deles pode voltar ao Nepal para escalar... Himalaya... Esta cadeia atrai o pior de dentro das pessoas.
 
AM: O Maurio Clauzet (Tonto) escreveu um texto, falando da decepção que ele teve com a comercialização da montanha. Quando você foi pro Himalaia em 2004, você teve a mesma decepção (texto publicado na revista Headwall). Como você encara isso? Você acha que o Himalaia é um mito?
 
MK: Tive o mesmo impacto quando fui ao Himalaia pela primeira vez em 2004. Assim como tive o mesmo impacto quando fui aos Alpes pela primeira vez e vi restaurantes, estações de trem e refúgios no meio de uma montanha. Parte da comercialização é culpa, por exemplo, das empresas como a que eu trabalho. Hoje em dia, indo a estas montanhas como líder de expedição eu vejo a coisa de outro jeito. Existem milhares de montanhas em cadeias como a do Himalaia, e apenas uma pequena porção destas montanhas é comercializada. Se o desejo do escalador é vivenciar a liberdade e solidão numa montanha, existem infinitas possibilidades para isso. Mesmo em montanhas como o Ama Dablam é possível escalar uma infinidade de rotas e apenas uma delas é comercialmente explorada. A vantagem de existirem expedições comerciais é que elas possibilitam pessoas sem experiência em poder acessar montanhas desse calibre. Talvez mais tarde, esse mesmo escalador pode escalar montanhas por conta. Muitos, simplesmente não têm tempo de organizar uma expedição e contratam uma agência.
Mito? Não vejo nada especial em escalar no Himalaia. Para mim montanhas são ambientes que eu adoro, onde moro e trabalho. Sejam elas nos Andes, Himalaia, Pamir, Alpes ou seja lá que outra cadeia. Vejo muitas pessoas no Brasil mistificando escaladas no Himalaia como se elas fossem algo inalcançável ou algo melhor do que os Andes. Sempre falo isso e volto a falar: quanto mais montanhas escalamos, mais montanhas aparecem no horizonte e mais percebemos que não escalamos nada!




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