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São Jerônimo da Serra, Paraná

O Salto do Tigre


Colunista:

São Jerônimo da Serra é uma cidadezinha situada no norte pioneiro, a cerca de 100kms de Londrina (PR), que passaria despercebida não fossem seus atrativos naturebas totalmente desconhecidos fora do seu estado de origem. São cachoeiras, cavernas e sítios arqueológicos concentrados no Parque Estadual do Penhasco Verde, área de preservação que ainda aguarda um Plano de Manejo. Entretanto, seu maior atrativo, o Salto do Tigre, é passível de visitação mediante árdua trilha de menos de 3kms e muita disposição. Situada entre o parque, uma fazenda particular e uma reserva indígena, esta fantástica queda de quase 140m de altura e que também atende pelo nome de Cachu João Nogueira, é apenas uma das surpresas que pode ser conhecida num dia cheio de estrada de chão, trilha, escalaminhadas e muito tchibum.

Embarcamos no busão da Garcia bem cedinho, antes das 6hr, pois eu e a Lau estávamos afim de curtir este passeio de bate-volta e, se possível, retornar final de tarde. Pra isso foi preciso madrugar. Sim, tarefa árdua que foi devidamente recompensada. No entanto, apesar da pouca distância que separar a “Pequena Londres” do nosso destino demandar, em tese, pouco tempo de asfalto, o mesmo foi incrivelmente ampliado a quase duas horas! Também pudera, são incontáveis paradas no caminho pra embarque e desembarque de todo tipo de passageiros, boa parte deles com chapéu de palha e botinas de vaqueiro.

Pois bem, após passar por Ibiporã, Jataizinho, Assaí, São Sebastião da Amoreira, Sta Cecilia do Pavão e Nova Sta Bárbara, finalmente chegamos ao nosso dstino, São Jerônimo da Serra, pouco depois das 8hrs. Cidade pacata que recém-acordava e nasceu duma picada de colonização do Tibagi, em 1854. O povoado ganhou o nome de São Tomaz de Papanduva, mas com a construção da primeira capela em homenagem ao santo e padroeiro da cidade ficou conhecida como São Jerônimo, uma vez que o “da serra” veio depois, uma vez que o lugar ta enfiado bem no meio dum vale.
 
Da minúscula rodoviária tocamos pela via principal, a Av. Pedro Ferreira da Costa, sempre tocando pro norte até finalmente deixar os limites da cidade. Uma vez no cemitério local o asfalto dá lugar a poeirenta estrada de chão, a Estrada Municipal Juca Mingote, que agora ganha a direção oeste, passando por antigas olarias e uma grande cooperativa agroindustrial. Mas é so mais adiante que os horizontes se ampliam de modo que é possível apreciar descampados e cultivos de perder a vista, enquanto que a sudoeste destoa um verdejante vale próximo das bordas dos penhascos que delimitam o município, a oeste.
 
Após um tempo de chão e após a chácara São Geraldo, abandonamos a via principal por outra que deriva dela na direção sul, tocando pro vale desejado. Uma vez nesta basta só seguir por ela, ignorando uma saída pela direita. Dessa forma vai tangenciar um simpático laguinho pela esquerda e um estreito foco de mata pela direita, até findar noutro lago menor, cercado de charcos e lama.
 
Dali em diante a estrada se estreita mais e torna-se ainda mais precária e íngreme. É normalmente até aqui onde quem vem de carro consegue chegar, sob risco de não conseguir voltar caso não possua um possante 4x4. Sempre descendo pro vale, a vereda bordeja um bosque até finalmente mergulhar finalmente no frescor da mata. É aqui também domínio dos habitantes locais, no caso, de enormes aranhas que deixam suas teia em meio ao arvoredo, e trocentos mosquitos que parecem ficar contentes com nossa presença, nos obrigando a passar segunda camada de repelente.
 
Apesar disso, a descida prossegue suave e tranquila enquanto o som de água marulhando se torna mais audível a nossos ouvidos. Dito e feito, logo o caminho desemboca numa enorme clareira com vestígios de fogueira as margens do simpático Córrego São Pedro, que esparrama suas águas rasas através de pedras e lajeados. Bem, daqui a picada acompanha o curso do rio, que toca pra sudoeste na direção da beirada do penhasco. Caminhada breve, ornada de flores á margem da via e bem agradável que não toma nem sequer cinco minutos. Da clareira em diante deixamos propriedade particular duma fazenda e já se está nos domínios do Parque Estadual do Penhasco Verde.
 
De repente, num piscar de olhos a trilha finda no mesmo instante em que já não se tem mais pra onde ir, uma vez que o chão subitamente termina pouco antes duma corredeira lindamente encachoeirada. Ali, as águas do ribeirão despencam verticalmente duma altura de exatos 136m de altura - o equivalente a um edifício de 50 andares! - pra despencar num poco cercado de blocos de arenito. Sim, uma das maiores quedas do Paraná e tão bonita quanto a do Tabuleiro (MG)!!! Dali  o córrego prossegue seu sinuoso e ainda furioso cursos rumo o Rio Tigre, cujo verdejante vale se encontra forrado por florestas de mata nativa e ciliar em todo seu trajeto, onde destoam majestosos peraus que se elevam em meio áquele verde exuberante, salpicado de araucárias.  Eram apenas pouco depois das 10hr e fizemos ali, no topo da queda ou mirante principal do parque, nosso primeiro pit-stop de descanso, café-da-manhã tardio e contemplação daquela paisagem espetacular. Apenas como curiosidade geral, o alto da queda é famoso na cidade por acidentes de “selfie” e por ser lugar onde bombeiros realizam treinamento, fato corroborado pela presença de grampos de rapel fincados na pedra.
 
Aqui valem algumas considerações do Parque Estadual do Penhasco Verde, área de preservação criada em 1991 e que ainda aguarda a elaboração do seu Plano de Manejo. Isto significa que o lugar está apenas no papel, não tem portaria e muito menos fiscalização ou sinalização, não cobra ingresso ou sequer possui infra-estrutura alguma pra atender o visitante.  Isso é de responsabilidade do IAP. A falta total de informações e de apoio pra uso público do parque é um problema, uma vez que eu mesmo só consegui a rota pra queda após cruzar muita informação da internet e contar com um pouco de sorte. No entanto, na cidade é possível conseguir info com os moradores ou até contratar um “guia” de caráter informal.
 
Pois bem, descansados decidimos descer o penhasco de modo a alcançar a base da queda. Do alto nasce uma vereda bem estreita que se pirulita em meio ao mato e enormes pedras penhasco abaixo, alternando curtos ziguezagues com trechos literalmente em linha reta piramba abaixo. Sim, se até o mirante o caminho era simpático e sussa, agora a coisa mudava totalmente. O nível de dificuldade se agravava não apenas pela alta declividade como também pela irregularidade total do chão, fosse pelos altos degraus no solo como pelas pedras lisas ou soltas que demandaram forca no joelho e atenção redobrada na descida. Na verdade, nada que algum praticante habitual de caminhadas não saiba, mas ali havia um arame disposto na margem esquerda da vereda que servia de eventual corrimão pra gente.
 
Assim, acompanhando o alto paredão de arenito repleto de bromélias e “rainhas-do-abismo” (planta endêmica da região) a nossa direita, fomos perdendo altitude de forma gritante dando uma ideia do desnível daquele penhasco. Fosse em pé ou na base do “quinto apoio”, chegou uma hora que o terreno suavizou e começou ase afastar do paredão do nosso lado, mergulhar numa mata mais densa e se afastar da base da queda, cujo rugido se diluia a cada passo dado. “Opa!”, pensei, “..tamo saindo for da rota!”.  Falei pra Lau me esperar que eu ia avançar no caminho pra apenas constatar que havíamos deixado escapar a entrada lateral pra base da queda, e que se seguíssemos em frente desembocaríamos nos descampados que acessam a queda a partir da baixada.
 
Retrocedemos então e durante a subida fui avaliando os possíveis acessos á base da queda, agora bem audível, sinal que a rota certa devia estar bem próxima. Na verdade, pra “vara-mateiro” que se preze bastava apenas rasgar na direção da queda, mas a vegetação ressequida, grossa e bastante espinhenta me fez optar por encontrar a trilha correta. Afinal, estava com a Lau e não queria que a gente terminasse a trip todo furado ou com a roupa em frangalhos. Os primeiros acessos mostraram-se apenas valas de água, mas o terceiro a ser verificado – um imperceptível carreiro que nascia perpendicularmente a partir do último vestígio de arame – mostrou-se como o caminho certo. Bingo.
 
Uma vez na rota certa não teve erro. Entretanto, se antes o caminho já era difícil aqui a coisa apenas aumentou o nível, mesmo com trilha relativamente bem marcada. O caminho toca encosta abaixo praticamente em linha reta, em grande declividade, e o chão irregular, as pedras, cipós e troncos tombados no trajeto surgem como obstáculo naturebas relativamente fáceis de vencer. Sobe, agacha, segura aqui, estica acolá, salta ali, etc... E com suor já escorrendo na testa, pelas frestas do arvoredo ja se avista parcialmente o véu alvo da majestosa cachoeira,  tornando o percurso finalmente gratificante.
 
Por fim emergimos da mata e temos uma visão ampliada do magnífico piscinão formado pela grandiosa queda, cercado por um imponente anfiteatro de rocha e arenito. Pausa pra muitas fotos, claro. Dali bastou encontrar um local nivelado pra descansar e tome novo trecho de atenção redobrada, uma vez que o borrifo da cachu deixava todas as pedras circundantes ali úmidas, com limo e terrivelmente escorregadias. E novamente o quinto apoio foi fundamental naquele setor onde pra avançar era literalmente era vencer “pedra sobre pedra”.
 
Mas com paciência e muita atenção encontramos nosso balneário particular posicionado de frente daquele magnifico véu alvo despencando 100m acima, assinalado inclusive por um totem e incrivelmente sem nenhum sinal de lixo! Donos absolutos daquele paraíso ficamos ali, curtindo o lugar, descansando de monte, mastigando um delicioso lanche e mergulhando nas águas frias do piscinão. Teve direito até cochilo sob o sol do quase meio-dia.
 
Após o salto, as águas do rio continuam com grande energia devido à declividade que ainda é muito elevada. O rio segue então por uma seqüência de pequenos saltos e corredeiras até a baixada de pasto supracitada. Tanto nas proximidades da cachu como no leito do rio os blocos abatidos são abundantes. Isto torna o rio perigoso inclusive originando sumidouros (a água infiltra por meio dos blocos abatidos saindo alguns metros a frente). 
 
De via ser menos das 14hr quando decidimos dar adeus aquele belezura natureba, que agora era iluminada e reluzia lindamente ao sol do meio da tarde. Arrumamos as coisas e refizemos todo trajeto de volta, desde a escalaminhada até a trilha principal e a subida até o alto da queda. Nesse trajeto nos deparamos com uma breve picada que nos passara despercebida na ida e, em meio a pequeno arvoredo e muitas bromélias, levava a um patamar que antecedia o mirante principal. Pausa pra mais fotos pois o lugar parecia nos reservar surpresas até na hora de ir embora.
 
Refizemos então o entediante trecho de estrada de volta pra cidade, onde tropeçamos com uma galerinha indo pra queda. É, parece que o povo dali costuma visitar o salto após o almoço. E assim retornamos á pacata São Jerônimo da Serra lá pelas 16hr, a tempo suficiente  de  beliscar algo e bebemorar num botequinho a empreitada, pra meia hora depois embarcar no latão de volta pra Londrina e assim findar mais um dia de passeio agradável.
 
O Salto do Tigre é apenas um dos grandes atrativos da simpática São Jerônimo da Serra, cidadezinha que merece o reconhecimento por suas belezas naturais agora fora do seu estado de origem.  A queda visitada neste relato é apenas uma das mais de vinte que o municipio tem catalogadas. Além de rico em cachoeiras, a cidade tem sítios arqueológicos e até cavernas de relativo fácil acesso. Não bastasse, aqui existem reservas indígenas que abrem espaço para o turismo, que inclusive incluem degustação de comidas nativas, mostrando que opções de roteiros diferenciados não faltam. E sim, já tenho outra visita programada pra cidade em breve, uma vez que nunca me canso de conhecer cada vez mais este belo rincão pé-verméio do Terceiro Planalto Parananense.
 
 



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